Sobre 2013

E pra avisar que todos esses text0s que passei aí foram da época que assisti eles, muitos meses atrás, e faziam parte de um projeto de 50 filmes de 2013. Abandonei, porque o tempo tá me consumindo e não dá mais pra acompanhar o cinema. Enfim, abaixo, alguns textos sobre alguns filmes de 2013 e um pequeno (e vergonhoso) top de álbuns, ouvi uns 10 no máximo, até agora:

O Som ao Redor | Kléber Mendonça Filho
A sociedade como corpo estranho, o isolamento e as relações sociais do Brasil contemporâneo. Engraçado ver que Som ao Redor inicia com fotos que parecem ter sido tiradas de um mundo esquecido e isolado, pois mesmo se tratando de uma sociedade, o filme não registre o mundo como é – mas sim como se esconde. Não é à toa que dentro daquela vizinhança no máximo apenas 4 personagens contracenam. Mesmo numa festa, cada um procura seu espaço, seja para se lembrar das memórias quase tão amargas quanto a cerveja que se toma ou rever um passado sombrio em um filme que não se revela fantástico nunca, mas o terror é sempre latente. Aliás, é quando se encaixa nesse gênero, mas nunca se rende a ele, que obviamente se torna mais assutador: verdadeiros fantasmas sociais que desconfiguram todo um universo em constante modificação pela sobreposição de narrativas feitas por KMF, feito à medida pela (e para) burguesia, onde o maior perigo se revela além da capacidade de uma rede de segurança, de muros gigantes e tudo mais; os fantasmas os atravessam. Pois o perigo não emana do que a gente vê, mas do que a gente escuta. Só KMF pra expandir o começo de Bruma Assassina e nunca perder o ritmo.

Django Livre | Quentin Tarantino
Tudo já foi dito sobre Django Livre, quiçá de todo o cinema de Tarantino. Deixando as questões de autor de lado, não acho necessária uma mudança do diretor simplesmente porque os filmes dele continuam sendo fodas, pois ele sabe fazer isso. Não se trata de um filme que ocasiona em ser, mas que é. Mas enfim, Django é tudo aquilo lá: Tarantino de volta com suas referências e suas ideias para criar seu universo, onde seus personagens e suas escolhas refletem seu pensamento sobre o cinema, sobre a época e sobre temas de abrangência universal, como o racismo [tenho que abrir um colchete pra dizer o quão filhodaputa o cara é em tornar cada martírio de um escravo uma experiência totalmente desconfortável de se ver]. Django é antirracista. Há aí um pingo de Samuel Fuller, há pingos do blaxploitation (nigga!), e, claro, dos faroestes. Há o Waltz repetindo seu personagem de Bastardos Inglórios, mas que felizmente não cansa, e que depois acaba sendo engolido por um personagem tão shownístico quanto ele, mas que nas mãos de DiCaprio se torna meio afetado, não chegando a incomodar. Há o deslocamento na imensidão do mundo, o faroeste como sinônimo de liberdade, locações de grande poder espacial como Mann, e aquela ofensividade em cada personagem, onde qualquer movimento parece prenunciar um tiroteio. No final, as balas de Django acabam: o que poderia ser mais verossímil que essa sutil observação sobre o velho oeste? Não que necessite, claro, mas essa suavidade das engrenagens dos personagens combina bem demais com a flexível mão do cara. No fim das contas, Django é mais um filme directed by Quentin Tarantino. E tem que ser muito Tarantino pra colocar, em pleno ápice de ação de um faroeste, uma música de hip-hop.

O Voo | Robert Zemeckis
Aquela audiência. É quando O Voo se assume um filme sobre o ser humano como ele é. É necessária a falha no projetor, é necessária a condução manual do computador assim como também foi necessária a condução manual do avião: Whip que rejeita o piloto automático, que mantém seu orgulho e suas ideologias para sustentar uma vida momentânea, sequelada pelo seu passado. Mas é quando entra em contato com a imagem morta que todo o seu orgulho desmonora, pois vale mais o respeito a quem merece do que a si próprio. Naquela situação, há a entrega a um novo humano, convicto de suas atitudes – ou, ironicamente, sóbrio sobre suas atitudes -, onde morre o herói para nascer uma nova pessoa. Tem nada a ver com religião, tem a ver com preenchimento de vazio.

Caverna dos Sonhos Perdidos | Werner Herzog
Herzog aventureiro, Herzog cientista, Herzog historiador, Herzog filósofo, Herzog cineasta. Ultimamente tenho ganhado um certo vício pela figura do diretor, pela sua mente. E o bom dos filmes de Herzog é que ele coloca sua mente em exposição, principalmente os documentários. Também, cresci vendo documentários no Discovery Channel e Animal Planet – mas que não se aproximam nunca de Herzog pois Herzog é cinema. Não é à toa que de uns tempos pra cá o meu filme favorito dele tem sido O Homem Urso, pois os seus docs são a recriação da história através da nossa mente, em uma espécie de hipnoze que ele faz, em suas imersões sensoriais que nos soterram juntos de suas histórias. Nesse caso, a caverna. Um passeio de câmera e narrações que dão um ar fantasmagórico a uma gruta que abriga figuras mortas mas que nas mãos de Herzog adquirem vida, pois ele acredita em suas vidas, e na suas capacidades de nos contar a história. E não existe ninguém além de nós para tentar entender o nosso passado perdido, enterrado pelo tempo e abafado pelo desenvolvimento da história.

Além das Montanhas | Cristian Mungiu
Mesmo depois de uns 60 anestesiantes minutos onde nada acontece direito, depois se torna necessário; é um filme que talvez se aproxime de Ilha do Medo de Scorsese (sendo menos genial), dessa vez transferindo o homem em meio ao debate dos dois lados da psiquiatria para o homem no extremo de sua fé, entre a razão e a questão religiosa. Nunca se dá pra associar os dois porque talvez os dois não se complementem – e é essa a visão de Mungiu, que pra falar a verdade importa muito pouco. O que é impagável mesmo é ele colocando um bando de freiras, seres intocáveis – literalmente – à beira da loucura, dando a cara à tapa, na cara de pau.

Os Três Patetas | Bobby Farrelly & Peter Farrelly
A inocência é um tema delicado. Tem que ter a mão certa para tratar, uma necessária delicadeza, ainda mais pela representação de um sentimento tão puro, que não se encontra apenas na infância, mas tá também no que há de mais bobo no mundo (amor, amizade etc etc). O que acontece muitas vezes com as sitcoms e os filmes americanos, assim como os desenhos pós-Chuck Jones é confundir o bobo/inocente com a bobagem, e é aí que vai tudo abaixo. Pois inocência não é tombos, batidas e outras mugangas em vão, é algo muito mais profundo que isso. E em Three Stooges dos Farrelly, eles nem sempre andam de mãos atadas, mas aos trancos e barrancos formam mais uma boa comédia, mais uma vez sobre crianças que nunca crescem inseridos numa sociedade cruel.

Detona Ralph
Legais as homenagens e tudo mais, mas é mais um filme que não sabe aproveitar o universo que contém: a multiplicidade toda de jogos, de personagens (novos ou os clássicos) e a maioria do filme se passa apenas lá na Terra dos Doces? A graça dos jogos antigos (e o que faz um jogo atual sair da mesmice) é toda a espontaneidade e dinâmica do seu universo, toda sua capacidade de mudar, de ficar mais elaborado à medida que a aventura avança. Detona Ralph parece querer apostar em seus personagens, mas existe um problema no ritmo e no timing cômico do texto, nas suas criações, mesmo que, no fim das contas, acabem conquistando. E o filme também.

Caça aos Gângsteres | Ruben Flescher
Ah, não dá pra negar que é bem apaixonante a vontade do Fleischer de fazer um filme DE FATO sobre a máfia, com todas as características de um Os Intocáveis ou Era Uma Vez na América: a amizade, o grupo selvagem puxado do western, o vilão, o amor escondido, os tiroteios… Todas as referências estão lá, de uma forma romanticamente encantadora. Mas por outro lado há um excesso de calculismo para torná-lo um “filme de gângsteres” e experimentalismos visuais que por vezes soam ridículos.

Amor | Michael Haneke
Ciente de todos os defeitos que possui, mas seria trair a mim mesmo dizer que não gostei de Amor; a visão de Haneke é pueril, seus personagens não passam de fantoches em um mundo desesperançoso e sua pretensão sensorial é a tortura de quem assiste. Filme masoquista e blábláblá, mas de uma visão interessante sobre o comportamento humano, e isso é algo que me atrai muito.

Outros vistos:

Sacrifício | Kaige Chen – o que há de pior no cinema pipoca americano, só que com olhos puxados.

A Viagem | Irmãos Wachowski – bonita a crença na montagem como matéria essencial de um filme, de apostar nela com todas as forças, mas não dá pra dizer que se sustenta: chega uma hora que os universos aparentam mais afastados que hora, completados com a filosofia de segunda categoria e umas cenas de ação que não levantam o astral do filme.

César Deve Morrer | Paolo Taviani, Vittorio Taviani – tá, tá… hmm… bem normal.

Killer Joe – Matador de Aluguel | William Friedkin – Friedkin é, definitivamente, um filho da puta genial.

—–

Talvez a coisa mais inesperada vinda de West, no sentido mais positivo do mundo: quem diria que toda a raiva que ele canta fosse apenas um prelúdio para essa mais-uma-obra-prima do cara? Não tem mais necessidade em dizer como ele manja do backing, como ele converte tudo para a voz tunada e abafada por tudo, como ele dá a cara a pau pra falar sobre o que sente de forma implícita, de forma pessoal e ainda faz de tudo isso, enfim, Yeezus. Daft Punk fez aqui o que não fez pra si próprio, mas enfim, Bound 2  é pra se ouvir em loop, Black Skinhead a coisa mais assustadora e não dá pra fazer um comentário lúcido – se é que um dia eu já fiz isso sobre alguma coisa – sobre I Am a God. Simplesmente Kanye West.

2. The 20/20 Experience | Justin Timberlake

3. bounty | iamamiwhoami

4.  Truant / Rough Sleeper | Burial

5.  mbv | My Bloody Valentine

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One Comment on “Sobre 2013”

  1. Daniel Mendes - BH disse:

    Blog tá foda cara, os textos de Django e O Som ao Redor estão muito bem escritos.


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