15x Monica Vitti

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E essa quantidade de faces é pouco. Talvez Antonioni nunca tenha feito um filme tão delirante e alucinante como Deserto Vermelho. A incomunicabilidade, o sentimento de isolamento dentro do corpo, dentro do seu próprio ambiente. Desde os momentos iniciais onde vemos planos distorcidos, temos noção que as máquinas oprimem o mundo e os seus sons abafam as vozes humanas. De toda a mecanização do trabalho, os sonhos dos vapores e do atrito de metais não deixam nenhum sussurro escapar, mas sim um grito atordoado e desafinado que parece querer nos dizer algo que temos que entender, mas que não conseguimos. A culpa é, parte da incomunicabilidade (a voz seria a voz interna de Giuliana? Um coro? Não sei) e parte do universo que a isola. Logo de cara, Antonioni prenuncia que o diálogo de seu filme também é conosco. Pois se tem alguém que pode entender o que se passa na cabeça de Giuliana, somos nós.

Os filmes de Antonioni geralmente são sobre o homem no mundo contemporâneo, e deslocados dessa modernidade que tanto os afeta. Ora, nossos corpos são cada vez mais ocupados pela máquina, o que há de mais estático no mundo. Engraçado ver que em uma cena, um robô que exprime um sorriso quase imperceptível, anda vagarosamente de trás para frente como se estivesse com defeito. Essa cena aparece logo após Giuliana acordar no meio da noite em mais um de seus delírios. Seria um pesadelo? Creio que sim. Ao ver aquele robô REAL, a mecanização do simples ato de caminhar lhe parece ser mais assustador que qualquer pesadelo que ela possa ter, afinal, é apenas em sua cabeça que Giuliana se entende.

É esse tédio eterno que ao mesmo tempo que parece movê-la em busca de um lugar qualquer onde haja um mundo orgânico para se poder viver, a individualiza de qualquer relação social e prejudica sua comunicabilidade. Os sentimentos dela não conseguem ser expressados em falas (que geralmente são cortadas, como se houvesse um bloqueio mental que a impedisse) e muito menos em suas contorções corporais, tirando sua face que sempre reflete a inocuidade que aquele universo causa nela e sua raiva pela incapacidade de expressar. Não só para os outros personagens do filme, mas também para a gente.

Antonioni constrói seu universo em uma Itália invernal lotada de nevoeiros e de tons híbridos, que farsa um ambiente estático e vazio, como uma folha de papel. O tédio que contamina a vida de Giuliana transcede, e o impacto sensorial é tão forte que nos causa um sentimento de estranheza e de tristeza. Seus espaços posicionam Vitti em um ambiente assombroso (não acho exagero quem chega a dizer que Deserto Vermelho é um filme de terror), onde o olhar para o extracampo parece procurar um lugar inalcançável, qual existe apenas em sua cabeça. Em um momento, ela pega um mapa e procura o lugar perfeito para se refugiar, mas nada parece satisfazer suas necessidades neste mundo, inclusive físicas. Em uma das poucas frases que consegue pedir claramente o que quer, fazer sexo com seu marido, Giuliana não é atentida.

Quando conta uma história a seu filho também nos idealiza o seu paraíso, onde os sons abafados pelas máquinas são substituídos por um canto agora sereno (não à toa a mesma música utilizada no começo do filme, mas que assume uma conotação e respectivamente um sentido diferente) e o contato com a natureza, tão orgânica que até as pedras tomam vida.

A criança que brinca com kits de química para seguir uma profissão já pré-concebida, onde a infância, lotada de brinquedos mais didáticos que divertidos, também torna-se mecânica. Esse olhar inesperançoso de Antonioni quanto ao caminho da humanidade se apresenta cada vez mais atual e perturbador. O mal-estar, a dor… a incomunicabilidade!

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E um pouco mais:

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O que dizer de Dois Destinos, de Valerio Zurlini? Arrebatador? Sim, acho que seria a melhor palavra…



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