Cachorro idiota!

Que fase de ouro foi essa do comecinho até os meados da década passada pro Cartoon Network – e só considero esses anos pois foram os que eu acompanhei mesmo. haha Meu sonho agora é ter disponível o canal Tooncast, sério mesmo, muito genial. Mas enfim, tirei esses dias pra rever Johnny Bravo (meu herói), Laboratório de Dexter, Du, Dudu e Edu, A Vaca e o Frango, entre outros, até chegar no que talvez seja o meu favorito daquela época, Coragem, o Cão Covarde.

Lembro várias vezes eu me enfiando debaixo do cobertor, tremendo de medo daquelas histórias, achando que era terror, quando na verdade é a comédia mais descaradamente cara-de-pau que já vi em um desenho animado. Mas o bom mesmo tá é na condução do horror, seja pela mise en scéne que várias vezes lembra Bava e Argento, ou pelo plot de cada episódio, dos contos de terror mais clássicos de múmias e vampiros, esses elementos aqui são levados a outro nível, em inúmeras relacionações aos próprios filmes do gênero ou a histórias reais, enfim, tudo fruto de uma criatividade invejável e de um senso de humor sacana e mais que essencial. Posso estar viajando, sei lá, mas vejo tudo isso mesmo:

Lugar Nenhum: o ambiente quase sempre é naquela casa que parece estar isolada do mundo, no meio de um deserto onde o único barulho que ecoa a quilômetros de distância é do atrito entre os metais de um catavento velho e enferrujado (que lembra, inclusive, o início de Era Uma Vez no Oeste), quando não os gritos de socorro do Coragem. O único contato com o mundo é através de uma televisão ainda em preto-e-branco e um computador ainda de fundo preto e letras verdes, e talvez também do jornal que Eustácio vive lendo, mas nada parece entender.

Dia e Noite: tudo parece estar tranquilo no período diurno, quando a luz do sol ainda ilumina os caminhos e é visível o horizonte ou se possui alguma possibilidade de fuga mais clara (em todos os sentidos), tanto que os episódios que se passam quase totalmente diante do sol são muito menos hardcore que os que se passam durante a noite. E tinham que ser, pois é durante a noite que os nossos medos vêm à tona, quando temos que lidar com a escuridão e o que se passa dentre aquilo, quando nossa imaginação já não entra em acordo com nossas vontades e quando, finalmente, podemos dormir para nos livrar de tudo isso. Coragem não dorme à noite; nenhum de seus personagens dormem à noite. O único momento de tranquilidade é quando o sol volta a brilhar no outro dia.

Simbolismos: se o melhor amigo do homem, o animal que se refere a coragem é um covarde, o que podemos esperar de todo o resto? Simples: um computador que possui voz própria (ou tem algum intérprete misterioso nunca revelado por trás); uma mãe careca e radical, que aparenta ser mais jovem que o filho Eustácio, e que ainda o enche de pancadas; uma chihuahua bipolar que se veste de cigana; três patos alienígenas machos que insistem em por ovos ou ainda o mais cruel e arrepiante gato-vilão Katz, de fisionomia que lembra algum demônio, e que sempre que surge toca uma música tão descolada quão aterrorizante. Todos eles coexistem dentro do universo mágico e claustrofóbico de Coragem, e o rodeiam como símbolos sem uma forma ou personalidade fixa, apenas cogitando a presença do sobrenatural ali.

Imaginação: esse mundo habitado por monstros e anjos, acima de tudo por personificações, onde tudo gira em torno de Coragem, especificamente do seu amor por Muriel, onde todos os medos chegam à noite e são apenas vistos por ele próprio, parece ser, afinal de contas, vindo da imaginação dele próprio. Nesse suposto insight, ele nos entrega os seus medos, os seus terrores, como se fossem pesadelos originados de uma maratona de filmes de horror vistos naquela tarde. Vindos à tona, sem nenhuma piedade.

E muito mais que isso.

Acompanho o Cartoon desde que me conheço por gente (até hoje, assumo), e não nego que a fase pós-2004 tem sido muito inferior à que já foi um dia, principalmente entre 2006 e 2010 (salvo Camp Lazlo). Mas parece que finalmente, aos poucos, volta a apresentar aquelas mesmas animações criativas e hilárias que já possuiu um dia, de inocência subvertendo algo a mais, mesmo que entre porcarias como Sábados Secretos e Titãs Simbiônicos. E um pequeno top pós-2010:

As Trapalhadas de Flapjack *****
Apenas um Show *****
O Incrível Mundo de Gumball ****½
Chowder ****
Hora da Aventura ****
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One Comment on “Cachorro idiota!”

  1. Desenho genial! Era meu favorito da infância, junto com Mansão Foster, Laboratório de Dexter e Batman do Futuro. Vou rever também, tanto pela nostalgia quanto pelo seu comentário (:


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