Videodrome – A Síndrome do Vídeo (David Cronenberg, 1983)

Sexta-feira 13 né, todo mundo dizendo que ia ver filmes de terror, aí revi Videodrome. hehe

De todos os filmes que tentaram criticar a relação entre mídia-público, Videodrome deve ser o mais exagerado, mais estranho, mais criativo e o mais genial. Deve haver, em algum canto, um tipo de escola que estuda incansavelmente esse filme de Cronenberg. Sério, é muita coisa. Não que seja um filme que aborde os mil temas do mundo, mas o domínio presente nele é coisa de doido, é genial, sobre o espectador, sobre o próprio filme, sobre o protagonista, sobre o tema etc: em todos os sentidos da palavra.

No começo, é através de uma televisão que vemos uma espécie de despertador; a moça dentro da TV se comunica diretamente com um Max – personagem que até aquele momento está em extracampo -, que é hora de acordar, que aquilo é a realidade, e não o sonho. Não se trata de um universo futurístico. Aí começa a narrativa sem fim e a penetração na mente do dito cujo. Conhecemos então um personagem típico da nova american-way-of-life, de uma nova cultura que não se firma em montar famílias, mas sim em destruir qualquer relação em prol da vida single, e aproveitar as noites qual não se está transando com qualquer um para prosseguir com seu vício; hoje em dia ele é praticamente relacionado ao computador, mas na década de 80, a febre mesmo era a televisão. É sustentando seu filme em um protagonista de moral ambígua que conhecemos o estranho e onírico universo de Videodrome.

A câmera de Cronenberg capta tudo o que ele vê, tudo o que ele sente. Se no início nos é demonstrada uma falsa-realidade – ao menos pensamos ser uma -, é à medida do tempo que tudo se torna mais surreal. O primeiro relacionamento amoroso do filme (e único nos apresentado) é algo sem o calor humano, mesmo iluminado à luz vermelha na sala, em um tapete, durante o sexo. É gélido, sombrio. Isso porque o interesse dos dois envolvidos, Max e Nicki, está mais no ato de sentir prazer, e tudo será feito para satisfazer as suas fantasias: logo entra em cena o masoquismo. Mas como tudo nesse filme de Cronenberg, não é em vão. Enquanto eles trepam e brincam com agulhas, em suas costas está presente uma TV, reproduzindo o pornô mais hardcore que se tem ideia, chamado Videodrome. O que vemos aqui é a realidade tentando imitar a ficção, a mídia como divulgação de temas absurdos e o horror presente naquela atmosfera. A partir desse momento, o programa pornô torna-se cada vez mais influente na realidade de Max, obcecado em descobrir o que há por trás daquele verdadeiro horrorshow, de aparência tão real.

Nesse insight, o que já julgávamos ser a mente maluca de um personagem não tão diferente de um esquizofrênico, mas mente essa que se aproxima de nossa realidade como espectador, vai sendo engolida por alucinações. O universo de Videodrome é esse, um engolindo o outro, gradativamente, dolorosamente, cuidadosamente – e pode tirar esse “engolir” pro lado literal. Esses mundos, que habitam a mente de Max, são simplesmente o da realidade e da ficção, o humano e do apresentado pela mídia. Sua obsessão pelo programa de sexo o coloca em situações extremas, de curiosidade, característica básica de qualquer homo sapiens; mas o que tem de homo sapiens naquelas frias expressões faciais, naquelas atitudes desprovidas de qualquer pensamento? Não se sente coragem, não se sente bravura. Cronenberg condena aqui a desumanidade dos humanos, sua transformação em algo mecânico. E se não fosse a curiosidade e o medo pelo que se tem a descobrir por trás de todo o mistério que envolve o Videodrome, Max, que funciona como o elo que liga o espectador ao próprio filme, seria apenas (mais) um inócuo personagem do cinema.

E a mídia, qual surgiu primeiramente com o boca-a-boca pela rua, com a finalidade unicamente de informar – mesmo que algumas fossem fofocas – passa a ser tratada como um amontoado de corporações, indústrias quais abusam de recursos apelativos e que tornam sua ideologia a busca pelo dinheiro, pela audiência. O programa Videodrome é apenas a hipérbole disso, o extremo qual poderia chegar – e que, convenhamos, não é muito diferente de nossa realidade. Essa é a visão de Cronenberg.

Não é a toa que Max segue as ordens de mulheres que aparecem nas imagens transmitidas pelos aparelhos televisivos, e que elas justamente são do sexo feminino; é a apelação, manipulação dos sentimentos e da mente humana. Tá em cena o contato direto entre a televisão e o homem. Mas a obsessão então torna-se a sua maior doença. Ele torna-se frágil, acessível e facilmente controlável. As alucinações tomam conta de toda sua visão, distinguir o real do imaginário já é impossível – tanto pra ele quanto pra nós. O que vemos então é a loucura tomando conta de tudo, o delírio e a explosão de Max contra as corporações. Mas não é vibrante, não é heroico: ele está sob controle.

Tudo é filmado de forma muito interessante. Nota-se que a câmera, qual deslizava em travellings e enquadrava objetos, passa a ser algo mais restrito ao corpo dos personagens à medida do tempo. Os cenários que apresentavam cores distinguíveis de início, vão ficando mais acinzentados, e só ganham cor quando as tripas ou gosma de alguém/algo estão em tela, num vermelho morto. Cronenberg abusa da música, do som, das cores, imagem, efeitos visuais, de tudo para compor essa atmosfera que tá diferente de qualquer coisa. Porra, é divertidíssimo ver os objetos se distorcendo daquela forma.

E se após se rebelar contra as indústiras, acreditar cegamente em argumentos (?) quais fizeram-o voltar-se contra aqueles qual acreditava anteriormente ser seus amigos, ele se encontra a sós com uma televisão, no meio do nada. E se após tantos acontecimentos quais o fizeram perder qualquer noção de realidade, ele apenas segue o que vê atrás das telas: a morte. O que era ficção ou realidade de  Videodrome não é explicado; mas fica a nosso critério escolher quem estava certo nesse imenso jogo de marionetes. Afinal, o cinema é uma mídia.

5/5

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One Comment on “Videodrome – A Síndrome do Vídeo (David Cronenberg, 1983)”

  1. Lucas CR disse:

    Belo texto Luis. Representa bem o delirio genial que é o filme.


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