Esse Obscuro Objeto do Desejo (Luis Buñuel, 1977)

Um homem joga um balde de água fria na cabeça de uma linda mulher, entra num trem, e sente-se confortável em falar a história de sua vida, desde o sexo até a traição, a três personagens que o acompanham (entre eles, um anão). Buñuel nos apresenta um mundo formado por uma teia de acontecimentos e personagens bizarros. Porque se em Anjo Exterminador ele disseca seus personagens com o tempo, em Esse Obscuro Objeto do Desejo ele já nos apresenta dissecados, em uma selva a) habitada apenas pelo homem em seu estado sentimental mais primitivo: a obsessão, seja ela por acontecimentos ou sexual, b) metaforizada em cenários que imitam a realidade dentro de uma ficção, que é o universo de Buñuel. O subconsciente então passa a se tornar o que está afrente dos olhos, e os desejos que habitam como fantasmas a mente humana passam a ser aplicados na realidade textual como acontecimentos ou personagens  (principalmente no genial lance em que Conchita é vista como duas mulheres diferentes, como objeto sexual ou como uma verdadeira mulher, onde passamos a ver da forme que Mathieu vê – ou como ela realmente é?).

Buñuel rompe as barreiras do próprio cinema ao apresentar uma estória onde três espaços (1. a ficção que um filme é, acima de tudo; 2. a representação de nossa realidade com a surrealidade de Buñuel; 3.  a história contada por Mathieu no loop do filme, que penetra o seu próprio imaginário) coexistem e assim transitam e atritam entre si, e torna-se metalinguístico quando questiona a própria ficção retratada nos filmes de forma geral e envolvente quando convida o espectador a questionar o que é autêntico numa enorme caça que se assemelha a um jogo de “Cadê?”. Porque tanques de guerra andando pela cidade, uma pessoa não se preocupando com um assassinato que acaba de presenciar ou ainda uma mãe praticamente insistindo que sua filha transe com uma pessoa que tem praticamente sua idade, são acontecimentos normais. Não são?

É tudo filmado de forma elegante, indo desde os cenários bem fotografados e enquadrados até travellings suaves que maquiam uma sociedade que já perdeu sua preocupação com o outro, que age apenas para satisfazer seus desejos e se fecham em grupos, sejam eles dependentes de uma situação financeira ou estilo de vida. O que há aqui é o diretor desfechando toda sua carreira e vagando entre seu próprio cinema, desde a posição política (Las Hurdes, pra quem não viu) até as influências do cinema europeu, como o neo-realismo italiano, o expressionismo alemão e o film noir, seu timing cômico impecável e todo o seu inexplicável poder de trazer em cena a mente do ser humano.

Tanta coisa…!

5/5

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