Melhores álbuns de 2013

Ouvi, pouca, coisa, (menos ainda, que o, ano passado), mas de modo, geral achei um ano, bem legal foi bem, mais fácil decidir as, posições que 2012 assim, como nos filmes também, então tô achando um ano, mais fraco mesmo mas enfim ainda bom chega a lista:

10 New Order – Lost Sirens

9 Pusha T – My Name is My Name

8 Cut Copy – Free Your Mind

7 The National – Trouble Will Find Me

6 Vampire Weekend – Modern Vampires of the City

5 Arcade Fire – Reflektor

4 Arctic Monkeys – AM

3 Justin Timberlake – The 20/20 Experience

2 Disclosure – Settle

1 Kanye West – Yeezus

Menções honrosas: Days Are Gone (Haim), Wondrous Bughouse (South Lagoon), bounty (iamamiwhoami), BEYONCÉ (Beyoncé),  m b v (My Bloody Valentine), Random Access Memories (Daft Punk),  The Next Day (David Bowie),  Queens of the Stone Age (…Like Clockwork),  Woman (Rhye), Fade (Yo La Tengo).


Sobre 2013

E pra avisar que todos esses text0s que passei aí foram da época que assisti eles, muitos meses atrás, e faziam parte de um projeto de 50 filmes de 2013. Abandonei, porque o tempo tá me consumindo e não dá mais pra acompanhar o cinema. Enfim, abaixo, alguns textos sobre alguns filmes de 2013 e um pequeno (e vergonhoso) top de álbuns, ouvi uns 10 no máximo, até agora:

O Som ao Redor | Kléber Mendonça Filho
A sociedade como corpo estranho, o isolamento e as relações sociais do Brasil contemporâneo. Engraçado ver que Som ao Redor inicia com fotos que parecem ter sido tiradas de um mundo esquecido e isolado, pois mesmo se tratando de uma sociedade, o filme não registre o mundo como é – mas sim como se esconde. Não é à toa que dentro daquela vizinhança no máximo apenas 4 personagens contracenam. Mesmo numa festa, cada um procura seu espaço, seja para se lembrar das memórias quase tão amargas quanto a cerveja que se toma ou rever um passado sombrio em um filme que não se revela fantástico nunca, mas o terror é sempre latente. Aliás, é quando se encaixa nesse gênero, mas nunca se rende a ele, que obviamente se torna mais assutador: verdadeiros fantasmas sociais que desconfiguram todo um universo em constante modificação pela sobreposição de narrativas feitas por KMF, feito à medida pela (e para) burguesia, onde o maior perigo se revela além da capacidade de uma rede de segurança, de muros gigantes e tudo mais; os fantasmas os atravessam. Pois o perigo não emana do que a gente vê, mas do que a gente escuta. Só KMF pra expandir o começo de Bruma Assassina e nunca perder o ritmo.

Django Livre | Quentin Tarantino
Tudo já foi dito sobre Django Livre, quiçá de todo o cinema de Tarantino. Deixando as questões de autor de lado, não acho necessária uma mudança do diretor simplesmente porque os filmes dele continuam sendo fodas, pois ele sabe fazer isso. Não se trata de um filme que ocasiona em ser, mas que é. Mas enfim, Django é tudo aquilo lá: Tarantino de volta com suas referências e suas ideias para criar seu universo, onde seus personagens e suas escolhas refletem seu pensamento sobre o cinema, sobre a época e sobre temas de abrangência universal, como o racismo [tenho que abrir um colchete pra dizer o quão filhodaputa o cara é em tornar cada martírio de um escravo uma experiência totalmente desconfortável de se ver]. Django é antirracista. Há aí um pingo de Samuel Fuller, há pingos do blaxploitation (nigga!), e, claro, dos faroestes. Há o Waltz repetindo seu personagem de Bastardos Inglórios, mas que felizmente não cansa, e que depois acaba sendo engolido por um personagem tão shownístico quanto ele, mas que nas mãos de DiCaprio se torna meio afetado, não chegando a incomodar. Há o deslocamento na imensidão do mundo, o faroeste como sinônimo de liberdade, locações de grande poder espacial como Mann, e aquela ofensividade em cada personagem, onde qualquer movimento parece prenunciar um tiroteio. No final, as balas de Django acabam: o que poderia ser mais verossímil que essa sutil observação sobre o velho oeste? Não que necessite, claro, mas essa suavidade das engrenagens dos personagens combina bem demais com a flexível mão do cara. No fim das contas, Django é mais um filme directed by Quentin Tarantino. E tem que ser muito Tarantino pra colocar, em pleno ápice de ação de um faroeste, uma música de hip-hop.

O Voo | Robert Zemeckis
Aquela audiência. É quando O Voo se assume um filme sobre o ser humano como ele é. É necessária a falha no projetor, é necessária a condução manual do computador assim como também foi necessária a condução manual do avião: Whip que rejeita o piloto automático, que mantém seu orgulho e suas ideologias para sustentar uma vida momentânea, sequelada pelo seu passado. Mas é quando entra em contato com a imagem morta que todo o seu orgulho desmonora, pois vale mais o respeito a quem merece do que a si próprio. Naquela situação, há a entrega a um novo humano, convicto de suas atitudes – ou, ironicamente, sóbrio sobre suas atitudes -, onde morre o herói para nascer uma nova pessoa. Tem nada a ver com religião, tem a ver com preenchimento de vazio.

Caverna dos Sonhos Perdidos | Werner Herzog
Herzog aventureiro, Herzog cientista, Herzog historiador, Herzog filósofo, Herzog cineasta. Ultimamente tenho ganhado um certo vício pela figura do diretor, pela sua mente. E o bom dos filmes de Herzog é que ele coloca sua mente em exposição, principalmente os documentários. Também, cresci vendo documentários no Discovery Channel e Animal Planet – mas que não se aproximam nunca de Herzog pois Herzog é cinema. Não é à toa que de uns tempos pra cá o meu filme favorito dele tem sido O Homem Urso, pois os seus docs são a recriação da história através da nossa mente, em uma espécie de hipnoze que ele faz, em suas imersões sensoriais que nos soterram juntos de suas histórias. Nesse caso, a caverna. Um passeio de câmera e narrações que dão um ar fantasmagórico a uma gruta que abriga figuras mortas mas que nas mãos de Herzog adquirem vida, pois ele acredita em suas vidas, e na suas capacidades de nos contar a história. E não existe ninguém além de nós para tentar entender o nosso passado perdido, enterrado pelo tempo e abafado pelo desenvolvimento da história.

Além das Montanhas | Cristian Mungiu
Mesmo depois de uns 60 anestesiantes minutos onde nada acontece direito, depois se torna necessário; é um filme que talvez se aproxime de Ilha do Medo de Scorsese (sendo menos genial), dessa vez transferindo o homem em meio ao debate dos dois lados da psiquiatria para o homem no extremo de sua fé, entre a razão e a questão religiosa. Nunca se dá pra associar os dois porque talvez os dois não se complementem – e é essa a visão de Mungiu, que pra falar a verdade importa muito pouco. O que é impagável mesmo é ele colocando um bando de freiras, seres intocáveis – literalmente – à beira da loucura, dando a cara à tapa, na cara de pau.

Os Três Patetas | Bobby Farrelly & Peter Farrelly
A inocência é um tema delicado. Tem que ter a mão certa para tratar, uma necessária delicadeza, ainda mais pela representação de um sentimento tão puro, que não se encontra apenas na infância, mas tá também no que há de mais bobo no mundo (amor, amizade etc etc). O que acontece muitas vezes com as sitcoms e os filmes americanos, assim como os desenhos pós-Chuck Jones é confundir o bobo/inocente com a bobagem, e é aí que vai tudo abaixo. Pois inocência não é tombos, batidas e outras mugangas em vão, é algo muito mais profundo que isso. E em Three Stooges dos Farrelly, eles nem sempre andam de mãos atadas, mas aos trancos e barrancos formam mais uma boa comédia, mais uma vez sobre crianças que nunca crescem inseridos numa sociedade cruel.

Detona Ralph
Legais as homenagens e tudo mais, mas é mais um filme que não sabe aproveitar o universo que contém: a multiplicidade toda de jogos, de personagens (novos ou os clássicos) e a maioria do filme se passa apenas lá na Terra dos Doces? A graça dos jogos antigos (e o que faz um jogo atual sair da mesmice) é toda a espontaneidade e dinâmica do seu universo, toda sua capacidade de mudar, de ficar mais elaborado à medida que a aventura avança. Detona Ralph parece querer apostar em seus personagens, mas existe um problema no ritmo e no timing cômico do texto, nas suas criações, mesmo que, no fim das contas, acabem conquistando. E o filme também.

Caça aos Gângsteres | Ruben Flescher
Ah, não dá pra negar que é bem apaixonante a vontade do Fleischer de fazer um filme DE FATO sobre a máfia, com todas as características de um Os Intocáveis ou Era Uma Vez na América: a amizade, o grupo selvagem puxado do western, o vilão, o amor escondido, os tiroteios… Todas as referências estão lá, de uma forma romanticamente encantadora. Mas por outro lado há um excesso de calculismo para torná-lo um “filme de gângsteres” e experimentalismos visuais que por vezes soam ridículos.

Amor | Michael Haneke
Ciente de todos os defeitos que possui, mas seria trair a mim mesmo dizer que não gostei de Amor; a visão de Haneke é pueril, seus personagens não passam de fantoches em um mundo desesperançoso e sua pretensão sensorial é a tortura de quem assiste. Filme masoquista e blábláblá, mas de uma visão interessante sobre o comportamento humano, e isso é algo que me atrai muito.

Outros vistos:

Sacrifício | Kaige Chen – o que há de pior no cinema pipoca americano, só que com olhos puxados.

A Viagem | Irmãos Wachowski – bonita a crença na montagem como matéria essencial de um filme, de apostar nela com todas as forças, mas não dá pra dizer que se sustenta: chega uma hora que os universos aparentam mais afastados que hora, completados com a filosofia de segunda categoria e umas cenas de ação que não levantam o astral do filme.

César Deve Morrer | Paolo Taviani, Vittorio Taviani – tá, tá… hmm… bem normal.

Killer Joe – Matador de Aluguel | William Friedkin – Friedkin é, definitivamente, um filho da puta genial.

—–

Talvez a coisa mais inesperada vinda de West, no sentido mais positivo do mundo: quem diria que toda a raiva que ele canta fosse apenas um prelúdio para essa mais-uma-obra-prima do cara? Não tem mais necessidade em dizer como ele manja do backing, como ele converte tudo para a voz tunada e abafada por tudo, como ele dá a cara a pau pra falar sobre o que sente de forma implícita, de forma pessoal e ainda faz de tudo isso, enfim, Yeezus. Daft Punk fez aqui o que não fez pra si próprio, mas enfim, Bound 2  é pra se ouvir em loop, Black Skinhead a coisa mais assustadora e não dá pra fazer um comentário lúcido – se é que um dia eu já fiz isso sobre alguma coisa – sobre I Am a God. Simplesmente Kanye West.

2. The 20/20 Experience | Justin Timberlake

3. bounty | iamamiwhoami

4.  Truant / Rough Sleeper | Burial

5.  mbv | My Bloody Valentine


Cartoon Network!

Um ciclo que eu poderia muito bem levar daqui pro resto da vida, que é em todas as férias fazer uma maratonas dessas animações da minha infância. Era um post assim que previa pra 6 meses atrás, só que acabei me empolgando demais com Coragem (se bem que não falei nem metade do que iria falar ali hehe). E nem esse saiu como eu quis, acabou que as férias tão prestes a acabar, e entre os filmes e o resto do tempo que eu via alguma coisa, aproveitando o Cartum Z@um (o antigo Cartoon Cartoons) no Cartoon. Não pude focar mais em coisas que queria, como Johnny Bravo e Laboratório de Dexter – embora no final do post eu faça uma citação a Rude Removal, pois acho essencial -, mas enfim, fica pra depois. Também tô adiando o top, tentei fazer de novo, mas sinceramente não dá…

Antes dos rascunhos que fiz sobre alguns que revi, os outros: Johnny Bravo, Laboratório de Dexter, A Vaca e o Frango, Coragem, O Cão Covarde, As Trapalhadas de FlapjackChowder, Terríveis Aventuras de Billy e Mandy, Três Espiãs Demais, O Incrível Mundo de Gumball, Hora da Aventura e Du, Dudu e Edu.

KND – A Turma do Bairro | Codename: Kids Next Door
****1/2
Só um dia desses quando revia um episódio de KND que insinuava o sexo que notei que o Cartoon tem uma certa relação de anarquismo infantil. Lembro em Dexter e Du, Dudu e Edu, mas talvez a mais cara-de-pau esteja aqui mesmo. E a jogada é essa, colocar crianças versus os adultos. KND se não é em si o fruto da imaginação dos personagens de um clubinho de casa na árvore, é a materialização dos sonhos de qualquer criança, com um universo (literalmente) todo à disposição das maiores viagens aventurísticas infantis que já vi, com o adulto como estraga prazeres e inimigo, os ícones dessa idade (da simples gravata ao próprio sexo) sendo alvos de armas criadas com reciclagem de qualquer coisa e da própria interpretação inocente do desconhecido. É de uma criatividade encantadora, de uma imaginação e inocência superficialmente infantil e simultaneamente descarada. Uma mescla maluca, e finalmente boa.

MAD | idem
***
Uma boa de uma surpresa vindo de um programa que foge dos padrões visuais e ideológicos do Cartoon Network. Meio irregular, de um texto que ora impressionantemente bom ora decaindo nos problemas de desenvolvimento das séries americanas ditas “adultas” atuais, que é a zoação se cofundindo com humilhação, em poucas palavras. Quando bom, é de um senso de humor que sabe combinar com a zoação de tudo, sem um tom forçadamente ácido, mas sim um tom que se desenvolve com uma certa despretensão de querer mudar o mundo. Pois se concentra no que há de menos relevante, mesmo quando zoa as celebridades. E é aí que vai de encontro com o infantil, com o desfoco em temas tão irrelevantes na infância como a política, o caos social e bláblábláblá.

Apenas um Show | Regular Show
*****
É o melhor dessa nova fase. É o que tem algumas características de vanguarda, mas como Gumball e Hora da Aventura é meio que uma atualização delas. Primeiro é assumir a perda da noção de continuidade, da existência de uma série – o nome já entrega que o que existe em Apenas um Show é apenas um show, uma viagem de 10 minutos em uma história maluca, que reserva um mistério que sempre se revela algo inesperado, por mais que a fórmula se repita um milhão de vezes. E o bom disso também é a possibilidade de explorar, bem, todas as possibilidades, desde de um plot de suspense teen pós-Pânico ou de uma história cibernética, sempre com deslocamentos temporais dos retratados na trama, dos objetos ou dos próprios personagens. São os pequenos detalhes que se amontoam pra formar o que é. Felizmente não crê que a bizarrice não tá apenas em latas de spray falantes ou de minoveados (alusão a minotauro), mas tá em todo o conjunto de todo episódio.

Rude Removal
****
Finalmente saiu no Youtube – infelizmente com as falas picotadas pra driblar a censura – Rude Removal, que esperava desde 2008. E confesso que também é meio diferente que tudo que esperava. Toda esse silêncio em torno de Rude Removal acabou tornando uma lenda de episódio maldito sobre o que era. Nas comicons que passava (sempre nos Estados Unidos), era estritamente proibida a entrada de câmeras para impedir que vazasse, com boatos inclusive de fiscalização rigorosa. Isso acabou mitificando o episódio, dando uma áurea bem mais hardcore do que de fato ele é. O que não é um problema dele em si, mas maldita expectativa. (E é bom deixar claro que ser hardcore não é qualidade.) A princípio, se trata apenas de uma brincadeira da equipe. Mas dá pra notar que o há ali é o melhor exemplo da anarquia quase nunca exposta em Laboratório de Dexter, mas também de forma escrachada, e que felizmente se rete apenas ao seu próprio umbigo. Não almeja criticar nada, é apenas uma história onde cada passo que dá funciona como desculpa para a desobediência infantil e consequentemente palavrões. De uma forma ou de outra, é quase danteana a bagunça que eles formam dentro da casa.

Três Espiãs Demais | Totaly Spies!
***1/2
Muita coragem de botar isso aqui, por isso duas coisas: 1) no final do post, escondido 2) se serve pra limpar minha barra (além de 15 fotos da Monica Vitti logo abaixo): mais uma das séries que cresci vendo misteriosamente sem saber o motivo de estar assistindo aquilo, na época no Fox Kids/Jetix. Antes de tudo, Totally Spies! é uma série sobre espiãs, ou seja, recheado de aventura, objetos pirotécnicos que resolvem qualquer problema em um piscar de olhos, vilões mundialmente nocivos (e bem vestidos), enfim, todos os clichês que o gênero poderia aproveitar, e ainda bem que aproveita. Não há uma mera disposição deles, mas uma espécie de potencialização, de tornar a favor do andamento de cada episódio. Chega a ser ácida a sobreposição de uma breguice em outra, que dão um tom inesperado a cada episódio, em um visual altamente colorido, um certo experimentalismo no fluxo da imagem (o ritmo é o maior dos disfarçantes, não sendo necessários cortes abruptos, deixa a imagem respirar), que por vezes não alcança o que se pretende e chega a arruinar um episódio ou outro. Não à toa lembra o Charlie’s Angels de McG, com uma sutil exaltação corporal e fashionismo feminino. Uma das coisas mais viciantes/engraçadas/legais do mundo.


15x Monica Vitti

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E essa quantidade de faces é pouco. Talvez Antonioni nunca tenha feito um filme tão delirante e alucinante como Deserto Vermelho. A incomunicabilidade, o sentimento de isolamento dentro do corpo, dentro do seu próprio ambiente. Desde os momentos iniciais onde vemos planos distorcidos, temos noção que as máquinas oprimem o mundo e os seus sons abafam as vozes humanas. De toda a mecanização do trabalho, os sonhos dos vapores e do atrito de metais não deixam nenhum sussurro escapar, mas sim um grito atordoado e desafinado que parece querer nos dizer algo que temos que entender, mas que não conseguimos. A culpa é, parte da incomunicabilidade (a voz seria a voz interna de Giuliana? Um coro? Não sei) e parte do universo que a isola. Logo de cara, Antonioni prenuncia que o diálogo de seu filme também é conosco. Pois se tem alguém que pode entender o que se passa na cabeça de Giuliana, somos nós.

Os filmes de Antonioni geralmente são sobre o homem no mundo contemporâneo, e deslocados dessa modernidade que tanto os afeta. Ora, nossos corpos são cada vez mais ocupados pela máquina, o que há de mais estático no mundo. Engraçado ver que em uma cena, um robô que exprime um sorriso quase imperceptível, anda vagarosamente de trás para frente como se estivesse com defeito. Essa cena aparece logo após Giuliana acordar no meio da noite em mais um de seus delírios. Seria um pesadelo? Creio que sim. Ao ver aquele robô REAL, a mecanização do simples ato de caminhar lhe parece ser mais assustador que qualquer pesadelo que ela possa ter, afinal, é apenas em sua cabeça que Giuliana se entende.

É esse tédio eterno que ao mesmo tempo que parece movê-la em busca de um lugar qualquer onde haja um mundo orgânico para se poder viver, a individualiza de qualquer relação social e prejudica sua comunicabilidade. Os sentimentos dela não conseguem ser expressados em falas (que geralmente são cortadas, como se houvesse um bloqueio mental que a impedisse) e muito menos em suas contorções corporais, tirando sua face que sempre reflete a inocuidade que aquele universo causa nela e sua raiva pela incapacidade de expressar. Não só para os outros personagens do filme, mas também para a gente.

Antonioni constrói seu universo em uma Itália invernal lotada de nevoeiros e de tons híbridos, que farsa um ambiente estático e vazio, como uma folha de papel. O tédio que contamina a vida de Giuliana transcede, e o impacto sensorial é tão forte que nos causa um sentimento de estranheza e de tristeza. Seus espaços posicionam Vitti em um ambiente assombroso (não acho exagero quem chega a dizer que Deserto Vermelho é um filme de terror), onde o olhar para o extracampo parece procurar um lugar inalcançável, qual existe apenas em sua cabeça. Em um momento, ela pega um mapa e procura o lugar perfeito para se refugiar, mas nada parece satisfazer suas necessidades neste mundo, inclusive físicas. Em uma das poucas frases que consegue pedir claramente o que quer, fazer sexo com seu marido, Giuliana não é atentida.

Quando conta uma história a seu filho também nos idealiza o seu paraíso, onde os sons abafados pelas máquinas são substituídos por um canto agora sereno (não à toa a mesma música utilizada no começo do filme, mas que assume uma conotação e respectivamente um sentido diferente) e o contato com a natureza, tão orgânica que até as pedras tomam vida.

A criança que brinca com kits de química para seguir uma profissão já pré-concebida, onde a infância, lotada de brinquedos mais didáticos que divertidos, também torna-se mecânica. Esse olhar inesperançoso de Antonioni quanto ao caminho da humanidade se apresenta cada vez mais atual e perturbador. O mal-estar, a dor… a incomunicabilidade!

*****

E um pouco mais:

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O que dizer de Dois Destinos, de Valerio Zurlini? Arrebatador? Sim, acho que seria a melhor palavra…


Melhores filmes de 2012

DOISMILEDOZE

Dois de Cronenberg em um ano só já o faz melhor que 2011. Lista bem inesperada aliás, quem apostaria em filmes como Lockout ou esse 007? E muita coisa estranha, é verdade, mas foi o ano também. E é aquele velho papo de todo mundo: muitas decepções, como Looper, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Os Infratores, Marcados para Morrer etc. E aliás, que pena, pois perdi Um Alguém Apaixonado nos cinemas, Girimunho eu nem vi passar por aqui, assim como o nacional que mais esperei: Homem que Não Dormia.

No mais, fiz a lista com conforto. Deixei de fora dois filmes que me pareceram bons na primeira vez que vi, mas hoje já não acho tão grandes: Minha Felicidade e Na Estrada. São revisões necessárias mas que não tenho interesse agora, portanto preferi deixá-los fora da lista. E o primeiro vem de uma relação que ando tendo desde o ano passado quando o vi pela primeira vez, com umas seis revisões esse ano. Pode ser que daqui a uns meses eu já mude de opinião (como mudo em toda lista rs), mas até lá, vai ser assim mesmo.

O critério foi o mesmo do ano passado: filmes que de alguma maneira estrearam no circuito do Brasil este ano, seja no cinema ou direto para vídeo, pois não dá pra penalizar os filmes quando o responsável é o medíocre circuito.

Ah, e preciso dizer que Road to Nowhere não tá na lista pois já entrou ano passado.

Menções honrosas: Febre do Rato (Claudio Assis), Prometheus (Ridley Scott), Kaboom (Gregg Araki), Piranha 2 (John Gulager), Tropicália (Marcelo Machado), O Homem que Mudou o Jogo (Bennett Miller), MIB³ – Homens de Preto 3 (Barry Sonnenfeld), Ted (Seth McFlarne), Cavalo de Guerra (Steven Spielberg), Pina (Wim Wenders), Os Vingadores (Joss Whedon), Os Mercenários 2 (Simon West), As Acácias (Pablo Giorgelli).

Blábláblá aí o top:

50. Olhos de Dragão | Dragon Eyes, John Hyams

49. Madagascar 3 – Os Procurados | Madagascar 3: Europe’s Most Wanted, Eric Darnell, Tom McGrath, Conrad Vernon

48. Valente | Brave, Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell

47. 50% | 50/50, Jonathan Levine

46. O Moinho e a Cruz | The Mill and the Cross, Lech Majewski

45. Sudoeste | idem, Eduardo Nunes

44. O Babá(ca) | The Sitter, David Gordon Green

43. Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha | idem, Helena Ignez, Ícaro Martins

42. Motoqueiro Fantasma 2: Espírito de Vingança | Ghost Rider 2, Neveldine/Taylor

41. John Carter – Entre Dois Mundos | John Carter, Andrew Stanton

40. Memórias de Xangai | Hai shang chuan qi, Zhang Ke Jia

39. Anjos da Lei | 21 Jump Street, Chris Miller, Phil Lord

38. Shame | idem, Steve McQueen

37. Menos que Nada | idem, Carlos Gerbase

36. O Deus da Carnificina | Carnage, Roman Polanski

35. Guerra é Guerra | This Means War, McG

34. Operação Invasão | Serbuan maut, Gareth Evans

33. A Perseguição | The Grey, Joe Carnahan

32. 007 – Operação Skyfall | Skyfall, Sam Mendes

31. O Porto | Le Havre, Aki Kaürismaki

30. Guerreiro | Warrior, Gavin O’Connor

29. A Toda Prova | Haywire, Steven Soderbergh

28. Resident Evil: Retribuição | Resident Evil: Retribution, Paul W.S. Anderson

27. Habemus Papam | idem, Nanni Moretti

26. L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância | L’Apollonide – Souvenirs de la maison close, Bertrand Bonello

25. O Que eu Mais Desejo | Kiseki, Hirokazu Koreeda

24. Sequestro no Espaço | Lockout, ames Mather, Stephen St. Leger

23. Sombras da Noite + Frankeenweenie | Dark Shadows + idem, Tim Burton

22. A Invenção de Hugo Cabret | Hugo, Martin Scorsese

21. A Separação | Jodaeiye Nader az Simin, Asghar Farhadi

20. Hahaha | idem, Sang-soo Hong

19. As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne | The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, Steven Spielberg

18. J. Edgar | idem, Clint Eastwood

17. Em Busca de Um Assassino | Texas Killing Fields, Ami Canaan Mann

16. As Quatro Voltas | Le Quattro Volte, Michelangelo Fammartino

15. Um Verão Escaldante | Un Eté Brûlant, Philippe Garrel

14. O Espião que Sabia Demais | Tinker, Tailor, Soldier, Spy, Tomas Alfredson

13. Argo | idem, Ben Affleck

12. Detetive D e o Império Celestial | Di Renjie zhi tongtian diguo, Hark Tsui

11. Hotel da Morte | Innkeepers, Ti West

10. Projeto X – Uma Festa Fora de Controle| Project X, Nima Nourizadeh

09. O Abrigo | Take Shelter, Jeff Nichols

08. Dredd | Dredd 3D, Pete Travis

07. Moonrise Kingdom | idem, Wes Anderson

06. Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres | The Girl With the Dragon Tattoo, David Fincher

05. Essential Killing | idem, Jerzy Skolimowski

04. Um Método Perigoso + Cosmópolis | A Dangerous Method + Cosmopolis, David Cronenberg

03. Histórias que Só Existem Quando Lembras | idem, Julia Murat

02. Holy Motors | idem, Leos Carax

01. Drive | idem, Nicolas W. Refn


Melhores Álbuns de 2012

2012m

Eu ainda tenho muito pra conhecer dentro da música, pois só esse ano passei mesmo a pesquisar/fazer lista etc olhar de um modo diferente, antes só me limitava a ouvir. Eu realmente gostei do que ouvi que foi lançado esse ano (ou talvez tenham me recomendado só o que tem de bom, pois 99% dessa lista vem de recomendações hehe). E é o mesmo de sempre: decepções, surpresas… Que bosta esse novo da Madonna, hein? O que não chega muito bem a ser uma decepção, a discografia dela é cheia de porcarias, mas aqui ela encontrou o fundo do poço. Sem falar nesse do Sigur Rós, o piloto automático do ano e o pior álbum deles, mas que não chega a ser ruim e tem umas 2 ou 3 músicas muito boas.

E mesmo com 25 aí, ficam alguns de fora que na certa merecem atenção: Tempest (Bob Dylan), Cruel Summer (vários artistas), Live From the Underground (Big K.R.I.T.), Paralytic Stalks (of Montreal), Sun (Cat Power), …Little Broken Heart (Norah Kones), BBNG 2 (badbadnotgood), ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (Goodsped You! Black Emperor), R.I.P (Actress), Total Loss (How to Dress Well), Hair (Ty Segall and White Fence), Looking 4 Myself (Usher)… dos que eu lembro.

E de texto, paro aqui.

25. Sweet Heart Sweet Light (Spiritualized)

24. Nootropics (Lower Dens)

23. The Haunted Man (Bat for Lashes)

22. Lonerism – Tame Impala

21. The Seer (Swans)

20. R.A.P Music (Killer Mike)

19. Battle Born (The Killers)

18. That’s Why God Made the Radio (The Beach Boys)

17. Swing lo Magellan (Dirty Projectors)

16. Psychedelic Pill (Neil Young)

15. Nocturne (Wild Nothing)

14. Until the Quiet Comes (Flying Lotus)

13. Le voyage dans la lune (AIR)

12. Stray Ashes (JBM)

11. TNGHT (TNGHT)

10. The Idler Wheel is… (Fiona Apple)

9. Luxury Problems (Andy Stott)

8. Channel Orange (Frank Ocean)

7. Centipede Hz (Animal Collective)

6. Shields (Grizzly Bear)

5. Wrecking Ball (Bruce Springsteen)

4. good kid, m.A.A.d city (Kendrick Lamar)

3. Bish Bosch (Scott Walker)

2. Privateering – Mark Knopfler

1. Bloom (Beach House)


Atualizando

Pois é, ando postando aqui menos que devia. Mas é questão de tempo, e de vontade… Pois então, apenas uma atualizada do que ando vendo esses dias.

Frankenweenie (idem, 2012) ****

Pra mim Tim Burton não virou uma bosta, embora esteja abaixo de Edward,  Sleepy Hollow, Ed Wood… enfim. Esse ano foram dois dele, e dois ótimos filmes, melhores que qualquer um que tenha feito na década passada (digo isso sem ter visto Planeta dos Macacos e sem lembrar nada de Noiva Cadáver). Em Frankenweenie, Tim Burton parece voltar a equilibrar o macabro com o sentimental como fazia antes, mas ainda está bastante irregular. Muitas vezes toma rumos que são um exagero (o que falar daquele enquadramento com o gato-morcego perfurado com uma madeira?) e não combinam com o tom que o filme tem. Acabam omitindo a bela história de amizade que é a melhor coisa dele. Mas acho que de ruim só tem isso, porque de resto, é um filme bastante divertido – e simpático -,  além de ter aquela áurea dos filmes B de terror e ficção-científica dos anos 50. Aliás, ando vendo muita gente falando da desnecessidade do preto-e-branco, mas ao meu ver ajudou muito na ambientação e no visual do filme, que não é falso, é plastificado pois tem que ser. As melhores fantasias de Burton sempre tiveram esse tom de manequins caricatos.

Piranha 2 (Piranha 3DD, 2011) ***

Olha, confesso que esperava menos do que é. Sei não, o primeiro já deu o que tinha que dar, mas esse aqui tem umas sacadas que, muito na teoria e pouco na prática, acabam sustentando o filme. Quando aconteceu o primeiro ataque das piranhas, eu achei que ia ser uma espécie de filmes de zumbi. Não deixou de ser, mas foi diluindo muito. Antes de tudo por que o filme não é tão direto quanto devia ser, se prende muito a subtramas que quebram o ritmo. Pra se ter noção, depois que surge a ameaça da invasão na piscina, as piranhas praticamente somem do filme, e ele toma rumos imbecis como a história de amor lá. Depois disso que, quando tenta fazer graça com coisas tipo David Hasselhoff, acaba soando ridículo.

Moonrise Kingdom (Wes Anderson, 2012) *****

O mais lindo do ano, talvez da década.